sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Levar a carta a Garcia

No passado fim de semana foi assinada a Carta de Compromissos para o Desenvolvimento de Trás-os-Montes e Alto Douro. “Uma região de oportunidades” é o título da missiva. Este documento, que visa alertar para o declínio da região nas mais diversas vertentes e unir esforços e vontades para o contrariar, foi escrito em primeira mão pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e devidamente rubricado pelos restantes parceiros: os Institutos Politécnicos de Bragança e Viseu, as Comunidades Intermunicipais do Alto Tâmega, Douro e Terras de Trás-os-Montes e as associações empresariais (ACISAT, NERVIR e NERBA).
No que respeita ao seu conteúdo, esta inicia com um rigorosa avaliação da realidade. De seguida destaca os desafios do novo quadro comunitário. Parte depois para a construção de uma visão para o território, onde expressa um programa integrado e transversal de desenvolvimento. Por fim, “as instituições signatárias comprometem-se a unir esforços para combater o declínio do interior norte e a desenvolver um trabalho articulado, colaborativo e continuado de promoção do desenvolvimento territorial sustentável”.
Foi um bom momento para a Região. Demonstrou união, coesão e vontade de superar as dificuldades com que se confronta no presente. A Academia e as restantes instituições regionais deram um importante sinal de alerta. Fizeram bem o seu trabalho.
Importa agora dar o passo seguinte. Fazer uma entrega efetiva da carta. Garantir que tem consequências positivas para a região e execução concreta no território. Passar das palavras aos atos, ou em linguagem popular: “Levar a carta a Garcia”: cumprir eficazmente uma missão, por mais difícil ou impossível que possa parecer. A origem desta lendária expressão, que aqui serve apenas como imagem, encontra-se ligada à guerra entre os Estados Unidos e a Espanha, nos finais do século XIX. Mackinley, o Presidente Americano, chamou um tal Rowan e passou-lhe uma carta, dizendo que ela deveria ser entregue, em Cuba, a Garcia, o comandante rebelde. Pelo que se conta, Rowan, sem nada perguntar, meteu a missiva numa bolsa impermeável e partiu para Cuba. Percorreu montes e vales, selvas e praias, mas, quatro dias depois, entregou a carta a Garcia e regressou aos Estados Unidos.
A bola está agora do lado dos agentes políticos. Cabe-lhes apresentar soluções concretas. Ao convidarem o Primeiro-ministro para a sessão solene de assinatura do documento, os signatários deram um importante sinal, requerendo o seu real envolvimento neste processo. Presente no evento, Pedro Passos Coelho assumiu “o comprometimento do Estado, de poder ser um parceiro deste compromisso estabelecido entre todas estas partes essenciais ao desenvolvimento", destacando o pioneirismo da iniciativa.
Assim, perante tal posição, compete-nos perguntar que medidas exprimem, no concreto, o acordo que assumiu em Vila Real? Como vai o Governo cumprir e honrar a tempo e horas os compromissos e tarefas aceites? Que medidas concretas vão ser implementadas?
Ficam as questões. Devem ser respondidas rapidamente. Senão será apenas mais uma carta de intenções que as férias de Verão se encarregarão de fazer esquecer.
Este Governo tem sido excessivamente centralista e a nossa região tem-se ressentido dessa situação. Talvez possa agora corrigir o rumo. Mas para isso, mais do que intenções são necessárias medidas palpáveis.

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