quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MOÇÃO – PELO ACESSO À SAÚDE EM TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO

1.      Relatórios recentes mostram que a Justiça social em Portugal tem vindo a descer desde 2011, reportando dificuldade crescente de acesso aos cuidados de saúde.

A sociedade portuguesa está mais pobre. 10,9% dos portugueses vive em privação material severa e um quarto da população encontra-se em risco de pobreza ou de exclusão social. Nesta categoria incluem-se as pessoas que se encontrem em pelo menos uma de três situações: pessoas em risco de pobreza, pessoas em situação de privação material grave e pessoas que vivam em agregados familiares com muito fraca intensidade de trabalho. Os segmentos mais atingidos são as famílias com crianças a cargo, desempregados e menores de 18 anos.
A relação entre pobreza e saúde é evidente. O estado de saúde de um grupo populacional num território é definido não só pelos problemas e necessidades em saúde, mas também pela acessibilidade e respostas sociais a essas adversidades que os grupos mais vulneráveis têm que enfrentar, principalmente os que estão expostos à pobreza, exclusão social ou isolamento geográfico.
O agravamento do risco de pobreza é uma realidade em Portugal e os indicadores de qualidade de vida sobre o nosso país, mostram os portugueses insatisfeitos, desconfiados e inseguros.
O relatório de Primavera do Observatório Português dos Sistemas de Saúde alertava para dificuldades no acesso da população aos cuidados de saúde, referindo que “não se atende suficientemente às dificuldades e necessidades crescentes de uma população em empobrecimento”. O mais recente relatório da OCDE (Organização Cooperação e Desenvolvimento Económico) indica que em Portugal os gastos de saúde por parte do utente têm vindo a crescer, aumentando o seu peso no orçamento familiar.

2.      A saúde é atualmente entendida como um nível integral de conforto em termos físicos, mentais e de integração na sociedade, não se refletindo unicamente na não presença de qualquer tipo de doença, numa definição mais abrangente e direcionada para a qualidade de vida.

A saúde está diretamente ligada às condições de vida sendo influenciada por fatores sociais, como o rendimento, a educação, hábitos tabágicos, o envolvimento social, o saneamento ou a qualidade ambiental e habitacional. As condições de trabalho exercem um profundo impacto sobre a saúde dos trabalhadores. A prevenção e educação para a saúde é crucial para a orientação da população para a adoção de hábitos considerados saudáveis.


3.      A forma como uma crise socioeconómica afeta a saúde depende essencialmente da proteção social à partida e da qualidade das respostas.

Portugal atravessa, no presente, o maior período de recessão desde a Grande Depressão de 1930s. O motivo principal é a grave crise internacional, desencadeada pela bolha especulativa no setor imobiliário, nos Estados Unidos da América (EUA) e que se estendeu posteriormente à crise das dívidas soberanas. Este país é particularmente afetado devido à sua pequena dimensão, geográfica e económica, e à realidade de estar fortemente integrado na economia mundial. Acrescem ainda os problemas estruturais da economia portuguesa, no contexto do Euro.
Uma crise desta dimensão reflete-se ao nível macroeconómico, no comportamento de vários indicadores, como o Produto Interno Bruto (PIB), exportações e importações. Os efeitos sociais podem ser vistos na perda de poder de compra pela população, no aumento do desemprego e da pobreza.
Neste período de crise económica, o estado vem cortando nos gastos de saúde. Para além da redução no preço dos medicamentos e nos salários dos profissionais de saúde, tem existido também um menor investimento em programas de prevenção e saúde pública, o que causa preocupação. É certo que os cortes em programas de combate à obesidade ou ao tabagismo podem melhorar as contas públicas, mas é crível que estes eventuais benefícios de curto prazo sejam anulados pelos gastos mais avultados a longo prazo, não só na despesa do Estado, mas também na saúde dos cidadãos.


4.      É um facto que Portugal pode orgulhar-se do posicionamento relativo do seu Sistema de Saúde em termos internacionais, no entanto, hoje vivem-se realidades contraditórias.

O SNS é o sistema de saúde mais usado pelos portugueses, havendo boa perceção por parte da população, que reporta como maior receio para o futuro a perda de qualidade do SNS. Mas está a procurar-se levar a cabo medidas de racionalização das despesas e de contenção de custos na prestação de cuidados de saúde que podem por em causa esta situação.
Os indicadores que sucessivamente vão sendo conhecidos mostram um abaixamento significativo das consultas e de tratamentos providenciados devido às dificuldades económicas de muitas pessoas, conjugadas com o aumento dos custos dos serviços e das taxas moderadoras, com as consequências de um risco de "racionamentos implícito" nos serviços públicos de saúde que inibam a “prestação de cuidados de saúde necessários” ou a "existência de claros sinais relativos à diminuição da acessibilidade aos medicamentos por parte dos doentes, associada ao seu empobrecimento”.
Na prática deparamo-nos com menor investimento nos cuidados de saúde, menos recursos, menos profissionais, gerindo-se a saúde numa perspetiva demasiado empresarial, olhando apenas na dimensão métrica, de mercado, obliterando muitas das suas especificidades.


5.      Necessidade de intervenção discriminada no território para o objetivo de desenvolvimento regional.

Ao nível da sociedade em geral constatamos ser possível agir sobre a saúde incidindo em variáveis críticas e que têm impacto relevante sobre a perceção da saúde. Portugal parece também estar compartimentado, existindo assimetrias em termos de interior/litoral no que respeita ao acesso a cuidados de saúde. Constatamos assim a valorização dos determinantes da saúde, sendo crucial uma intervenção racional e territorial, não considerando apenas a dimensão métrica e financeira da saúde, mas também atendendo às especificidades dos determinantes sociais de saúde.
A política de encerramos de serviços de saúde tem ignorado as implicações na população e nos territórios. É necessário a constituição de um sistema cada vez mais eficiente, mas focado no serviço dos cidadãos, das famílias e das comunidades.


Assim, considerando que:
1.      Relatórios recentes mostram que a Justiça social em Portugal tem vindo a descer desde 2011, reportando dificuldade crescente de acesso aos cuidados de saúde.
2.      A saúde é atualmente entendida como um nível integral de conforto em termos físicos, mentais e de integração na sociedade, não se refletindo unicamente na não presença de qualquer tipo de doença, numa definição mais abrangente e direcionada para a qualidade de vida.
3.      A forma como uma crise socioeconómica afeta a saúde depende essencialmente da proteção social à partida e da qualidade das respostas.
4.      É um facto que Portugal pode orgulhar-se do posicionamento relativo do seu Sistema de Saúde em termos internacionais, no entanto, hoje vivem-se realidades contraditórias.
5.      Necessidade de intervenção discriminada no território para o objetivo de desenvolvimento regional.

Os subscritores da presente moção propõem:

1.      A definição de uma estratégia em relação à saúde para o Distrito de Vila Real que coloque os cidadãos em primeiro lugar, considerando os determinantes sociais de saúde

2.      Equidade de acesso aos cuidados de saúde a nível territorial evitando o encerramento das extensões de saúde, agravado pela falta de transportes públicos nas aldeias e vilas do interior do país.


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